quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Vital

Bem acho que o sentar me numa secretária e escrever numa folha de papel já não me acontecia há muito tempo… Cheguei, sentei, peguei na caneta e comecei por escrever os meus dados. Abri a folha e li o título. O meu pensamento está noutro sítio, anda por aí sozinho, deixou-me, deixou-me a mim e ao meu corpo, e não me está a ajudar nesta hora que supostamente devia de ser tão importante para mim. Por estranho que me soe, sinto-me sem pensamento. Ele não me está a ajudar! Preciso dele agora mais que nunca e ele não está presente! Como vou conseguir ficar aqui duas horas com estas folhas na mão, à minha vista, e sem nada poder fazer? Para onde foste? Porque me deixaste? Volta, volta por favor. Só te peço isso…sem ti que sou eu? Defino-me pelo quê? Sinto-me nada, o vazio chegou em mim. Não sei que fazer…acho que devia começar a ler o texto e a tentar arranjar uma solução para que estas duas horas rendam algo…mas não consigo, porque não te tenho aqui, porque voaste para algum sítio desconhecido para mim. Que faço eu agora? Tento concentrar-me, já estou a ler o texto pela 4º vez e é como se tivesse estado parada durante momentos. Nada entra no meu espírito, sou apenas um corpo sentado, imóvel, que respira, mas nada de resto se passa. Tenho à minha volta outra gente rodeada de pensamentos, nervosismo, adrenalina…querem fazer isto o mais rápido possível, estão a pensar nos próximos que se aproximam…e eu….e eu permaneço somente ali naquela sala, o meu corpo está lá, apenas isso. Para onde foste tu mesmo? Volta…por favor…que sou eu sem ti? Deixaste-me aqui sozinha neste momento de tensão, preciso de ti…va lá…volta… Passados alguns minutos parece que voltaste. Sinto-me agora mais confiante porque sei que estás aqui, que me vais ajudar…duas horas passaram e tu continuaste ali, naquela sala, presente…Agradeço-te por isso, só lamento não teres chegado mais cedo. Mas agora voltaste a deixar-me. Porque me fazes isto ultimamente? Sinto me uma coisa somente. Lamento por tudo o que te obriguei a passar, mas por favor volta, fazes parte de mim, completas-me, graças a ti sou o que sou, quem sou; sem ti não há nada, somente a parte orgânica. Preciso de ti mais que nunca, agora, neste momento exato, por isso volta! Porque me deixaste? É só isso que não entendo. Deixas-me às portas de um mundo desconhecido para mim, que me parece perigoso, e eu tenho medo desse desconhecido, não me sinto bem, não me sinto eu. Porque me fazes ficar assim? Porque me fazes sofrer por algo que não sei? Dá-me uma razão e calar-me-ei para sempre, só te peço isso…mas tu nem isso fazes. Tenho medo. Tenho medo porque sei que se não voltares entretanto não me vou conseguir levantar, vou sendo levada gradualmente para o fundo, e sem ti, não me conseguirei levantar e voltar…estás a deixar-me nervosa, sem esperança. Estás a deixar a minha família sem esperança em mim. Porra volta! Que posso eu fazer sem ti? Porque deixas que o lado negro me absorve e não me deixe ver a luz? Fazes-me largar tudo, fazes-me não querer saber de nada, fazes-me ficar desinteressada…no entanto, obrigas-me a estar atenta aos desabafos dos meus pais, às preocupações que estou a gerar em toda a minha volta. És mau. E eu sinto que não consigo vencer-te, porque até as ultimas forças que me restavam, tu conseguiste tirá-las de mim. Porque me escolheste a mim? Porque sinto que cada vez mais estou a entrar num ciclo vicioso, do qual tenho medo e não consigo sair? Choro. Choro e choro e dizem-me que faz bem chorar, mas eu não quero chorar. Eu quero sentir que estou presente, não o oposto, e graças a ti, é isso que sinto, estou ausente dos outros, de mim mesma. Perdi-me. Não me consigo encontrar, às vezes ainda tento, mas graças a ti, já ando a perder todo o interesse nisso. Graças a ti, parece que me dá gozo não me importar com nada e eu ainda sei que isso não é o suposto, mas graças a ti nos momentos, parece que fico feliz por isso, e é frustrante, porque eu sei que o que me estás a fazer não está certo. Porque me dás apenas momentos fugazes de sobridez? Já me fizeste isto algumas vezes mas nunca por tanto tempo. Sinto-me a desfalecer, e mais uma vez, parece que nem me estou a importar por isso estar a acontecer. Em tempos, fizeste-me acreditar no amor de alguém, esse sentimento, quase como que um fruto proibido, é certo, sabe tão bem. Senti que tinha a tua autorização para ser feliz em alguns momentos, e fui mesmo, mas logo a seguir vieste pronto a atacar-me, e deixaste-me de rastos, perdi outra batalha, mais outra. Mas sempre me falaram na batalha e na guerra, e eu, aí, pensei que, lá está, perdia aquela batalha mas não a guerra, e lutei. Lutei por longos meses e quase que senti que ganhei. Mas não. Agora sinto mesmo que perdi, que fui derrotada nessa guerra. Passado esse período de luto senti, e quase que posso dizer que sinto, que estou como que perto de encontrar outra definição de Amor para mim, mas estou com medo, e sinto que não deveria. Pelo menos o medo que estou a sentir, tão anormal para o que está remetente. É estúpido, absurdo até, mas isto é tudo por ti, culpa tua. Graças a ti, sinto que estou a desperdiçar o que podia vir a ser um bom sentimento, tenho medo, lá está. Este medo tão horrível que não sai de mim nos últimos dias. Estás a deixar me cada vez mais isolada deste mundo. É o que disse; sinto que me estás a levar para um mundo, mas não este, e esse mundo é sombrio demais para mim, não me sinto capaz para tal, mas lá está, graças a ti, parece que nem me estou a importar com isso….vês a circularidade de estupidez que me fazes sentir?! Isto podia ser tão mais simples…mas não tenho forças. É como naqueles sonhos em que algo acontece e sentimos que estamos a gritar mas ninguém nos ouve…eu sinto isso. Sinto que a relação que tenho contigo ultimamente, é exatamente essa….eu grito, chego a ficar sem voz (talvez porque tu me tiras) e, no entanto, parece que ninguém me ouve. Que posso eu fazer em relação a tudo isto? É a minha vida que está a ser decidida, e graças a ti tenho medo que a possa estar a desperdiçar pelo motivo mais absurdo de sempre. Porque não voltas para onde é suposto? Fazes-me sentir infeliz, desiludida com tudo à minha volta. Sinto-me inútil, sou uma fraca. Começo a sentir-me vencida por ti, por esse teu arrogante, horrível espírito pelo qual estás a ser tomado… Ao menos deixa-me amar, deixa-me sentir algo. Não me deixes quando mais preciso de ti. E eu preciso sempre de ti. És-me vital. O meu “eu” começou quando nasceste e só irá partir quando tu mesmo o fizeres…vamos estar sempre juntos, é o suposto! Porque me foges? Será que também tu não consegues lutar contra esse “algo” que está a tomar poder de ti?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Amor burguês

Havemos de engordar juntos. Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz “cliente seguinte”, estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos. As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento. É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala. Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante. As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem. Havemos de engordar juntos. Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá. E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória. Nós acreditávamos. Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho. José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro, 2012)